sexta-feira, 4 de junho de 2010

Biblioteca Central é contra a leitura

Recebi esta reportagem por e-mail e achei interessante partilhar.A biblioteca referida no texto é em Salvador.


James Martins


Não sei quanto dinheiro é gasto nessas campanhas de incentivo à leitura que de vez em quando o governo faz. O que eu sei é que não existe campanha publicitária barata. Livro barato até que de vez em quando se encontra, com paciência e sorte. Mas o que é barato pra você pode não ser pra mim, segundo a teoria da relatividade. Enfim, as bibliotecas públicas estão aí para isso. E não se pode falar em biblioteca pública em Salvador sem mencionar a primeira e maior de todas: a Biblioteca Central dos Barris. Na verdade ela é a primeira do Brasil e da América Latina e completará 200 anos em 2011! E é por falar na Biblioteca Central que eu devo dizer que, toda vez que entro lá para pegar um livro (empréstimo ou consulta), fico pensando que todas as campanhas de incentivo à leitura do governo são dinheiro jogado fora.

O principal erro da BCB é supor que a relação com a leitura se dá -não com a descoberta dos livros- sempre com livros já conhecidos. É simplesmente uma loucura neste país de analfabetos e semi-analfabetos. Se preciso é, explico. O incauto e inculto candidato a leitor vai à biblioteca, atendendo ao apelo do governo que pagou a propaganda para convencê-lo de que ler é legal e, quando chega, esbarra no muro de contenção que é o balcão de atendimento. Ali, um funcionário público típico faz a indagação: -“Que livro você quer?” Pronto, perdemos um leitor. Pressupõe-se que todo mundo já sabe o que quer ler. É como alguém perguntar a um menino de sete anos qual é o nome da mulher que será a mulher de sua vida. Quem sabe pelamordedeus? Qualquer um que tenha uma relação mais ou menos íntima com livros sabe que o ‘prazer de ler’ se dá de forma muito diferente. “A vida é a arte do encontro”. A gente futuca os livros, observa a capa, estranha o título, confere o tamanho das letras, etc. e depois escolhe. E depois troca. Às vezes após folhear apenas algumas poucas páginas. Às vezes um livro que parecia uma coisa se mostra outra. Às vezes um livro que não parecia nada muda toda a nossa vida. Mas na Biblioteca Central dos Barris, livros e leitores são prisioneiros. Não se pode nem ver a capa. Ou seja, é uma biblioteca para se fazer pesquisa de escola, não para quem quer ler por ler.

Mas os problemas não param no último parágrafo. Suponha então que o leitor já saiba o que quer ler: aí a ignorância dos funcionários entra em ação. Eu mesmo já fui vítima, muitas vezes, da incompetência dos ‘carcereiros’ da Biblioteca Central dos Barris, que me diziam que não tinham um livro que eu sabia que tinha -por já ter lido lá mesmo. E só após eu traduzir, fazer mímica, lembrar a cor da capa... o bendito volume surgia, acompanhado da cara de pau do funcionário que já estava me olhando torto pela insistência. Existem os casos de preguiça de procurar, sim, mas na maioria das vezes o problema é que o pessoal que trabalha na biblioteca não é leitor, nem parece gostar de livros, e se atrapalha. A melhor história desse tipo foi a que aconteceu com Cazzo Fontoura, meu amigo que escreveu aqui mesmo nesta coluna sobre a carestia dos ‘sebos’. Ele foi à BCB e pediu um livro qualquer de Baudelaire, mas cometeu a injúria de pronunciar em francês o nome do poeta (Bôdelér, sei lá). O ‘carcereiro’ escreveu, sabe-se lá como, no sistema, e voltou com a má notícia: -“Bôdelér não tem não senhor”. Desconfiado, Cazinho anotou num pedacinho de papel e viu a cara do cara se iluminar: “-Ah! Sim, Baudelaire [diga-se como se escreve] tem”. E veio com um exemplar de ‘As Flores do Mal’, livro que foi acusado, em 1857, de ultrajar a moral pública. Mas é a Biblioteca Central dos Barris quem ofende a moral pública e as publicações que lá dormem. Aposto que tem livro lá que ninguém nunca leu. Suponhamos um autor inédito que tenha doado o seu livro para a BCB. Quem vai chegar lá pedindo o seu livro? Só um vidente, evidentemente. Se a biblioteca de Colúmbia, no livro de Jorge Amado (Tenda dos Milagres), fosse a nossa Central, Pedro Archanjo jamais teria sido descoberto por James D. Levenson. É preciso abrir o acesso aos livros. Como todos no Brasil, vou recorrer a São Caetano: “Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil / Que votamos aos maços de cigarro”. A desculpa de que somos vândalos e vamos destruir o acervo não se sustenta e nem resolve o problema. Afinal é mais barato e eficiente instalar câmeras e deixar as pessoas navegarem entre os volumes do que fazer propaganda que sai pela culatra. E, além disso, só seremos menos vândalos quando estivermos mais próximos das flores de Baudelaire, Manuel Bandeira e Jean Paul Sartre.

E pensar que já houve tempo em que, para trabalhar na biblioteca era preciso falar francês, segundo um livro comemorativo da própria BCB. Outra tolice: há um espaço muito aconchegante na biblioteca, aquele onde às vezes acontecem shows e sempre tem uma árvore maravilhosa e algumas cadeirinhas que eu adoro. É perfeito para a leitura. Mas (pasmem!) a leitura ali não é permitida. Nem que o livro seja seu. Nem se você pegar o livro na seção de empréstimos. Em hipótese alguma. É um absurdo. Será incompetência ou preguiça de criar um sistema qualquer para evitar que se roubem ou risquem ou façam sei lá o que com os livros? Um exemplo prático contra eles e a favor do meu argumento é a Biblioteca Monteiro Lobato, em Nazaré, onde o acesso aos livros é livre e eu ainda encontro volumes que já li ali há mais de 10 anos. Desisti de freqüentar a Biblioteca Central dos Barris há algum tempo, porque não agüentei mais. Só entro pra fazer xixi. O governo devia parar de gastar dinheiro com campanha de leitura enquanto vigorar este sistema nefasto de aprisionamento dos livros na principal biblioteca da Bahia. Seria mais coerente. Se vierem usar a desculpa da consulta do acervo pela internet, antecipo, só se for com uma garapa.

Por falar em livro, dinheiro e Cazinho, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em quem já votei e ajudei a eleger vereador, deu uma entrevista para a revista Muito onde reclamou que o seu salário de R$8,1 mil não dá para comprar os livros que ele quer. Fiquei intrigado: que livro caro da zorra é esse que Juca compra? A Bíblia de Gutenberg, primeira edição? Mas depois, pensando no texto de Cazinho sobre os sebos, matei a charada: Juca é o melhor freguês de Brandão! Só pode ser. Ainda mais sabendo que um ministro não paga casa, transporte e etc. O ministro disse ainda que um ascensorista da câmara ganha mais do que ele. Eu, que comprei um exemplar de ‘Grande Sertão: Veredas’, novinho, por 50 pilas, e um exemplar lindo de ‘ABC de Castro Alves’ por R$1 (!), no Carmo, tô doido pra ser ascensorista da câmara e montar uma biblioteca para emprestar livro a Juca Ferreira. Onde é que bota o currículo? A tirar pela Biblioteca Central dos Barris não é preciso entender nada de elevador. Outro problema da entrevista de Juca Ferreira é que ele é a favor do Vale Cultura, benefício de R$50 para o cidadão comprar livro, revista, ir ao cinema, shows, teatros e etc. Mas se com oito mil Juca não consegue nem comprar livros, imagine com 50 reais! Mas é como eu disse lá em cima, no início: o que é barato pra você pode não ser pra mim, segundo a teoria da relatividade.

Fonte: http://www.bahianot icias.com. br/entreteniment o/noticias/ cheiodearte/ 2010/06/01/ 151,biblioteca- central-e- contra-a- leitura.html

Um comentário:

Lori G. disse...

Ótimo esse seu texto. Concordo em tudo e ainda lamento por lembrar que não é só a Biblioteca Central que é assim... Que dizer das biliotecas das faculdades? Como se formam esses bibliotecários que não têm - com raras e admiráveis exceções - o hábito de ler?

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